Carlos Eduardo Louzada Madeira
edição 8
Àquela altura dos acontecimentos, ele tinha certeza de que os desdobramentos do ocorrido seriam devastadores. Incapaz de se conter de tanto temor, Cypriano entrou no carro e seguiu direto para o aeroporto. Tinha que desaparecer o mais rápido possível.
Tarefa hercúlea aquela de fugir de si mesmo. Era o que fazia o tempo todo: esconder-se de si mesmo. Sobre o ato, bem, pode-se dizer que, ainda que resumido à intenção e ao quase-perpetrado, pesava como se consumado fosse. Pesava sobre a consciência mortificada do médico e, em breve, pesaria também sobre tudo o que mais fizesse parte de sua vida.
Opacidade.
Era homem de poucas palavras, retraído, mas sabia cativar os que com ele conviviam. Artesão relacional, dava-se bem com os poucos familiares e até tinha alguns amigos. Isso, porém, não conseguia suprimir a degradante sensação de abandono que o habitava e que fazia com que existisse envolto em sombras. Sentia-se um estranho no mundo, um sujeito deslocado e em eterno desconforto.
Sua vida era um espelho que refletia cenas distorcidas e imprecisas. Acostumado a ver seu microcosmo inundado pela substância cáustica da solidão, nem se dava mais ao trabalho de buscar afetividade. Na verdade, retalhava a própria afeição na tentativa de suprimir qualquer possível veio autocomiserativo. Apesar de tudo, sua imaginação às vezes fertilizava as esperanças de gozar um futuro isento da opressão sufocante do presente.
Corrosão.
Os transtornos de Cypriano se intensificaram depois que Alma fora admitida como enfermeira no hospital. Transbordamento emocional era algo que ele, indivíduo discreto e comedido, nunca havia experimentado. Não sabia lidar com isso. A chegada daquela mulher caudalosa provocou um tumulto irreprimível na subjetividade eremítica do doutor.
Foi em dezesseis de fevereiro que tudo aconteceu. Eram oito e meia e Alma iniciava o seu expediente noturnal. Decidido, Cypriano atraiu a jovem enfermeira até o depósito que ficava no tranqüilo quarto andar da edificação e lá tentou desferir sobre ela toda a torrente de sentimentos que vinha alimentando a sua desordem interior naqueles dias. Ao se aproximar da enfermeira, no entanto, congelou. Viu a face da moça se transfigurar de tal modo que precisou recuar rapidamente. Era como se sua beleza enfeitiçante subitamente se esvaísse, enformando uma força diabólica familiarmente aterrorizante. Viu em Alma a fúria deformadora do vazio que o devastava dia após dia. Viu nela a inutilidade estúpida de se manter respirando e sonambulizando por um mundo que o queria putrefato. Cambaleante, Cypriano saiu às pressas do depósito, ajeitou o jaleco desalinhado e, sem conseguir se desvencilhar da imagem de máscara morta que se lhe infiltrara na memória, desapareceu no seio da noite.
A bordo do avião que o levaria a Buenos Aires, ainda nervoso, meditou sobre aquela situação. Indagou-se por um instante se não estaria se precipitando, mas se convenceu de que já não podia mais aceitar aquela meia-existência. Recostou-se então na poltrona, relaxou e pôs-se a contemplar o nada.
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